ScienceDaily (13 de Janeiro de 2009)
Todos os genes que o exótico Tigre da Tasmânia herdou apenas de sua mãe serão revelados por uma equipe internacional de cientistas em uma pesquisa que será publicada em 13 de Janeiro de 2009 na edição online do Genome Research. Os pesquisadores marcaram, com sucesso, a primeira sequência de genes desse marsupial carnívoro, que se parecia com um cachorro com listras de tigre e se extinguiu em 1936.

Essa é uma fotografia de dois thylacinus no Zoológico de Washington D.C, 1906. (Crédito: Fotografia por E.J.Keller, dos arquivos do Instituto Smithsonian (via Wikipedia))
A pesquisa também abre as portas para o largo e não-destrutivo uso de espécimes de museu para aprender por que mamíferos se extinguiram e como essa extinção pode ser evitada.
“Nosso objetivo é aprender como impedir que espécies em perigo se tornem extintas,” disse Webb Miller, um professor da Penn State, que leciona biologia, ciência da computação e engenharia, e é membro da equipe de pesquisa que inclui cientistas dos Estados Unidos, Suécia, Espanha, Dinamarca, Reino Unido, e Alemanha. “Eu quero aprender o quanto eu puder sobre por que mamíferos de grande porte se tornam extintos, porque todos os meus amigos são mamíferos de grande porte,” diz Miller. “Porém, eu espero que a publicação dessa pesquisa também irá reacender discussões sobre, possivelmente, trazer o extinto Tigre da Tasmânia de volta à vida.”
A pesquisa recai sobre uma nova tecnologia de sequenciamento de genes e métodos computacionais desenvolvidos por Miller e Stephan C. Schuster, um professor de bioquímica e biologia molecular na Penn State. O novo método involve extrair DNA do pêlo do espécime extinto, e não do osso, como era feito em estudos anteriores de espécies extintas. O trabalho da equipe revela que o pêlo é uma poderosa cápsula do tempo para preservar DNA através de longos períodos e sobre uma variada gama de condições. “Eu penso no pêlo como um santuário para DNA antigo”, diz Schuster. “Está tão bem selado que nem mesmo ar ou água conseguem penetrar no DNA guardado do lado de dentro. Mais importante ainda, bactérias não conseguem chegar ao DNA enquanto a estrutura do pêlo se mantém consistente.”
“Tigre da Tasmânia” é o nome popular para um thylacine extinto (o Thylacinus cynocephalus), que é mais proximamente relacionado com cangurus e coalas do que com cachorros e tigres. O último espécime conhecido morreu em um zoológico da Tasmânia em 1936. Thylacines têm atuado como protagonistas em discussõs sobre a possibilidade de trazer espécies extintas de volta à vida, mas apesar da disponibilidade de muitos ossos e outros restos, tentativas anteriores de ler o DNA do thylacine não foram bem sucedidas.
Miller, Schuster, e seus colegas foram os primeiros a reportar a longa sequência de genes de um animal extinto, o mamute peludo, em Novembro de 2008. Depois eles colaboraram com Anders Goetherstroem, na Universidade Uppsala, na Suécia, para mirar o Tigre da Tasmânica, porque, como o mamute, era um objetivo cobiçado dos pesquisadores de DNA antigo, que consideraram essa sequência impraticável devido à qualidade inadequada do DNA disponível dos espécimes. “A especulação era que a única razão pela qual nós pudemos retirar DNA do pêlo de mamute, era porque o mamute estava conservado em gelo no permafrost do Ártico, mas nosso sucesso com o Tigre da Tasmânia mostra que o pêlo pode proteger o DNA por longos períodos sob uma variedade de condições ambientais,” diz Schuster.
Em seu novo trabalho no Genome Research, Miller, Schuster, e seus colegas descrevem a sequência gênica mitocondrial de dois Tigres da Tasmânia, um do Museu Smithsonian e outro do Museu Sueco de História Natural. Um espécime foi preparado por um taxodermista como uma pele e o outro foi submergido em etanol. A equipe extraiu pequenas amostras de DNA do pêlo das duas espécies, e então usaram seus métodos para sequenciar cópias independentes de cada região da molécula de DNA de muitos diferentes fragmentos de DNA dos pêlos. Os cientistas asseguraram a alta fidelidade de seus resultados, determinando independentemente cada posição na sequência no máximo de 50 vezes.
Os cientistas sequenciaram todo o DNA das amostras de pêlo dos dois Tigres da Tasmânia, incluindo o DNA mitocondrial, que é o foco da pesquisa do Genome Research, e DNA nuclear, que a equipe pretende analisar em um trabalho futuro. “Esse estudo, em que nós sequenciamos o genoma mitocondrial completo da espécie thylacine, também mostra que é possível sequenciar o genome nuclear completo,” diz Schuster.
A nova sequência de genes permite que a equipe determine precisamente como o Tigre da Tasmânia está relacionado a outros marsupiais. Eles compararam as sequências ao sequenciamento do genoma mitocondrial de uma espécie referente vivente, um marsupial chamado Myremecobius fasciatus. “As duas sequências de thylacine eram extremamente similares uma com a outra, com apenas 5 diferenças em 15492 nucleotídeos,” Miller diz. Os pesquisadores dizem que essa similaridade sugere que, como as espécies se aproximavam da extinção, havia muito pouca diversidade genética para resisitr a bactérias e outros estresses ambientais. “Baixa diversidade genética aparece como um tema comum nas extinções de espécies que vêm sendo estudadas pela nossa equipe,” diz Schuster.

Myremecobius fasciatus
A pesquisa também revelou que duas sequências anteriores num arquivo público, ambas marcadas como genes mitocondriais de Tigre da Tasmânia, estavam incorretas. “Nosso espécime do Smithsonian era o macho descendente de um animal fêmea nomeado na fonte da informação mais antiga, então a sequência mitocondrial, que é herdada apenas da mãe, deveria ser idêntica, mas nossas análises mostraram mais de 10% de diferença.” diz Schuster.
O novo estudo mostra que os métodos pioneros na Penn State são potencialmente úteis para uma nova disciplina envolvendo a análise genômica de amostras originadas dos arquivos do museu, que Schuster chamou de “Museomics”. As coleções datadas em muitas centenas de anos e agora abrigadas no museu mundial de história natural é o tesouro da ciência,” diz Schuster. “Nós esperamos adicionar informação da sequência de DNA aos dados taxonômicos fornecidos por muitas dos importantes espécimes que definiram as espécies que conhecemos hoje em dia.”
A experiência da equipe nesse estudo indica que os diretores do museu podem ser colaboradores entusiásticos para os cientistas porque a análise do pêlo não danifica a aparência das coleções do museu. “Qualquer pêlo que cair de um espécime fornece material suficiente para sequenciar o DNA do animal,” diz Schuster. Em contraste, uma amostra de osso envolve deixar buracos na coleção do museu, o que os curadores se relutam a permitir. “As vantagens de obter DNA do pêlo faz o Museomics possível em uma escala maior,” diz Schuster.
Miller e Schuster disseram que seus planos de futuras pesquisas incluem estudos do único marsupial carnívoro que restou no mundo, o Diabo da Tasmânia. “Nossa pesquisa genética preliminar com o Diabo da Tasmânia indica que seu genoma pode ter, alarmantemente, menos diversidade genética do que o mamute peludo e o Tigre da Tasmânia quando eles se tornaram extintos, então nós, agora, direcionamos uma parcela de nosso programa de pesquisas para estudar o Diabo da Tasmânia na esperança de prevenir essa magnífica espécie mamífera da extinção.”
Essa pesquisa recebeu apoio financeiro da Universidade Penn State, da Fundação Gordon and Betty Moore, do Departamento de Saúde da Pennsylvania, e da Fundação Ramon Areces na Espanha.
Traduzido e adaptado de http://www.sciencedaily.com/releases/2009/01/090112201131.htm